Na natureza selvagem (filme/livro)

7 09 2020

Essa semana me peguei pensando nesse filme, não sei bem o porquê. É um filme de 2007, sobre a estória (real) de um rapaz (Christopher) que no início da década de 90, após se formar, resolve desconectar-se do mundo e da sociedade por completo, e inicia uma jornada para o Alaska, sozinho, após desfazer-se de tudo: dinheiro, identidade, carro, qualquer coisa que pudesse vinculá-lo à sua antiga vida, uma vida em sociedade.

Eu assisti a esse filme algumas vezes, gostei muito, uma fotografia bem feita, uma trilha sonora que é um espetáculo à parte, feita sob encomenda pelo Eddie Vedder, do Pearl Jam (sou suspeito, sou muito fã dele). As letras de duas das músicas em especial passam por muitas situações do filme:

“Sociedade, tenha piedade de mim
Espero que não fique brava se eu discordar
Sociedade, realmente louca
Espero que não esteja solitária sem mim”
– em Society

“De joelhos dobrados não há como ser livre
Levantando um copo vazio, eu pergunto silenciosamente
Se todos meus destinos aceitarão aquele que eu sou
Para que eu possa respirar”
– em Guaranteed

E o filme fala disso, de discordar e não estar conseguindo respirar, viver, na sociedade moderna. Quem tenta “escapar” das regras, é louco. Será mesmo? Ou loucos mesmo seriam aqueles que não questionam? Que permanecem na lógica de estar sempre correndo atrás de tudo, sofrendo a pressão de ter mais, de ser mais, muitas vezes sem se perguntar o porquê… Desde sempre, estamos sendo confrontados com objetivos, metas, expectativas que outros colocam sobre nós. Se não tivéssemos nada disso, será que faríamos as mesmas escolhas?

No caso da estória que inspirou o filme, não consta que o rapaz fosse violento, revoltado… ele estava bastante descontente com as relações familiares, com as coisas que esperavam dele (trabalhar para conseguir dinheiro, dirigir um carro melhor, etc), e simplesmente queria estar à parte daquilo tudo, e assim o fez. Encontrou e encantou pessoas ao longo da sua jornada, fez uma “base” num ônibus abandonado no meio do nada, que ele batizou de “Magic Bus” (Ônibus Mágico), e que posteriormente virou ponto de peregrinação de mochileiros, ocasionando inúmeros acidentes, até ser removido de lá pelo governo local. Ele buscou o seu caminho, e acabou encontrando algumas experiências que não viveria de outra forma, além de ter encontrado também a morte prematura (perdão pelo spoiler, mas é fato conhecido…). Valeu a pena? Só ele poderia responder…

Acho a estória inspiradora, mas não no sentido de seguir os passos dele, mas sim no sentido de dar vazão a esse tipo de inquietação e questionamento, por quanto tempo devemos estar sempre nos dedicando a ter as coisas, a conquistar coisas, sem olhar para nossas próprias necessidades. A sociedade nos pressiona a conquistar, ter resultados, independente de nossas próprias aspirações mais profundas. Expectativas são criadas no nosso nascimento, projeções são feitas em cima de cada um de nós, por vezes enviesadas por frustrações de nossos pais, que podem enxergar na geração seguinte a chance de alcançar o que não lhes foi possível.

Negar tudo isso é difícil, olhar para si e se permitir fazer coisas que fogem das expectativas a seu próprio respeito, não é um exercício fácil. Acho que o caminho do equilíbrio é sempre o melhor, embora nem sempre consigamos enxergá-lo. Cada um é responsável pelo seu próprio caminho (ou deveria ser), pelas suas escolhas, seus erros e acertos. E temos que conviver com eles ao longo da vida, faz parte. Às vezes é difícil enxergar as implicações, mas elas estarão lá. O melhor acontece quando conseguimos levar as coisas com leveza, com a importante serenidade de aceitar o que não pode ser mudado, o que passou, o que já foi. Não se deveria perder tempo com arrependimentos ou descaminhos já escolhidos, eles ficaram pra trás, e ali permanecerão… Talvez em tom de arrependimento, uma das conclusões finais no diário de Christopher – que foi usado para escrever o livro e o filme – diz algo sobre a felicidade, que ele acaba descobrindo no meio da sua aventura solitária:

“A felicidade só é real quando é compartilhada.”

Christopher McCandless

De alguma forma, a busca dele estaria sempre incompleta se ele não pudesse compartilhar, de dividir o sentimento, a completude, a felicidade que ele buscava, e cuja busca não terminou…

Se quiser ouvir a trilha sonora completa: tem no Spotify e também no YouTube, e se quiser se aventurar no livro, tem aqui.

O ônibus mágico…

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